terça-feira, janeiro 16

Conversa de Alentejanos


:-)
Na Tasca do Jaquim Ferrador, na Rua Pedro Franco, numa fria manhã de verão, conversam, o Ti Palminha, o Compadre Campaniço e o Manel Montes Velhos.

Ti Palminha, o velho Baleizoeiro, com tanto de velho como de manhoso, percorria as tascas da Porcalhota, vendendo pequenas utilidades que transportava dentro de uma pequena sacola de lona - canivetes, corta-unhas, lâminas de barbear, stick desinfectante para depois de barbear, camisinhas sem mangas, etc.
Pergunta aos companhêros do mata-bicho daquela manhê:

- "Atão e vomecês são capaiz de me dizer quantas espeices de cabrões é quiá?"

O Manel de Montes Velhos, que na verdade era de Aljustrel, nascido e criado na Messejana, mesmo à beira da famosa praia, que nunca chegou a ser e mais o Campaniço, ficaram de boca aberta a matutar na resposta àquela pergunta. Disse o compadre Manel, antecipando-se ao Campaniço que ainda remoía a pergunta lá dentro do cérebro, à mistura com os vapores do segundo cortado do post mata-bicho.

- "Ora, toda a gente sabe que há só dois: os bravos que escoiceiam quando sabem e os mansos, que nã s'importam."

O Ti Palminha, parece que ainda o estou a ver, removendo um bocado de cera do ouvido esquerdo com a cabeça de um fósforo que depois utilisou para reavivar o fogo do tabaco de Onça (marca Duque) no seu cachimbito. No meio de uma baforada de fumo, ele diz,

- "Há trêis!"
- "Trêis?" - interrogam os outros dois em uníssono comigo, que também fiquei admirado.
- "Sim, trêis" - e ele explicou - "há os que são e nã sabem, os que sabem e nã s'importam, e os quêmados"!
- "Os queimados?" - duvidei, eu próprio, metendo o bedelho na conversa.
- "Pois, amigo Jaquim Ferrador, os quêmados... são aqueles que metem as mãos no lume por elas!"

Fez-se silêncio, durante um bocado, na taberna da Pedro Franco. Na velha telefonia "Schaub Lorenz" sempre sintonizada nos "Emissores Associados de Lisboa", até o locutor de serviço - Júlio César - parece que se apercebeu da situação e fez uma pausa no programa, como se também ele tivesse ficado surpreendido.


Então, todos olhámos de soslaio, pelo canto do olho, para as mãos do compadre Campaniço.

Lembro-me muito bem desse homem. Desempregado, ainda muito novo para desempregado crónico, passava muitas horas ali sentado no mocho encostado à parede frente ao balcão. Era sempre o segundo, a seguir ao Ti Palminha, a vir ao mata-bicho (um eduardinho) logo pelas sete da manhã, mal eu abria a porta da tasca.

Ele era estranho, acho que vivia sozinho, introvertido, parecia até um bocado retardado.
Recordo perfeitamente uma frase que ele repetia, várias vezes ao dia, falando para ninguém, a propósito de qualquer coisa.
Só a ele, a mais ninguém, eu ouvi dizer este adágio - "Nunca choveu que não escampasse!"
(:)

5 Comentários:

Blogger O Bicho disse...

Desculpem lá, distraí-me e com o entusiasmo, escrevi a história toda de uma assentada - é grande demais, mas dá-me gozo escrever.

15/01/07, 23:52  
Anonymous Quim disse...

É o mesmo que dizer: - depois da tempestada vem a bonança.
O mundo está quase a inverter os polos. Até este tipo de velhos acaba, quando passar a nossa geração.
A seguir, outros virão, com dicção fluente, letrados e sem pronúncia.
Perder-se-ão as raízes que a civilização devora. O que é pena.

16/01/07, 08:54  
Anonymous OBicho disse...

Muito bem alembrado Quim:
a pronúncia; o cante; as boas manêras; os sabores; as raízes; as origens;
Tudo misturado e enfiado numa TRITURADORA donde sai "Picadinho" Amburgueres de Civilização, para mais fácil e rápida digestão na voracidade dos dias modernos.

16/01/07, 09:58  
Blogger Rui Salvador disse...

É o progresso, meus senhores. Bem ou mal evoluído, mas é o progresso.

17/01/07, 00:20  
Anonymous Anónimo disse...

Bela história, oh Bicho, e conheci tão bem o velho Palminha e a velhota dele também....esta nostalgia deprime-nos quando nos devia trazer, talvez, mais luz!

Seve

23/01/07, 09:15  

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